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Ary dos Santos
17 de Abril de 2010
Foi quando me mostraste umas músicas que eu parei e relacionei o poeta Ary dos Santos com um conjunto de músicas que fazem parte de mim desde sempre. Parei, como disse. Parei e googlei pela poesia dele. Parei e li com atenção alguns dos seus poemas. E fiquei coladíssima à cadeira. Ele sempre andou por aqui, mas eu nunca parei, li e reflecti. Foi, de facto, um poeta de elevadíssima qualidade. Basta olharmos com cuidado para um dos poemas que, a esta altura, é um dos meus preferidos.
Estrela da Tarde
Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto.
Isto é qualquer coisa do outro mundo. E pois bem, é assim. Tal e qual como ele diz.
A acompanhar o poema, deixo também a música, cuja letra é precisamente este poema, interpretada e muito bem pela Mafalda Arnauth.